Por Hélio Faraco de Azevedo

(Discurso proferido na solenidade de recebimento da Comenda da Ordem Honorífica do Instituto dos Advogados do RS – IARGS, na qualidade de Advogado Emérito, recebida na data de 26 de novembro de 2014, durante sessão solene com jantar comemorativo aos 88 anos do IARGS, evento realizado no Hotel Plaza São Rafael)

 

Esta noite estou duplamente homenageado.

Reconhecido como advogado emérito, mais qualificado me torno quando estou nesta tribuna falando e agradecendo em nome dos outros homenageados: um jurista, um professor, e uma magistrada.

Trata-se de uma oportunidade ímpar que deve ser bem aproveitada.

Ainda mais quando devo falar após o professor Silvino Lopes Neto, mestre em Direito, orador eloquente e que tem rara visão do mundo.

Certamente esta representação honrosa resulta da minha condição de mais velho, mais experiente, de mais vivido e de assim ter uma visão do mundo que só permite o decorrer do tempo.

 

Hoje, pois, no crepúsculo da minha vida, posso dizer-lhes que as virtudes dos homens são mais importantes que os títulos.

O bom, todavia, é quando reunimos virtudes e títulos, do que podemos nos jactar.

Penso que, por mais qualificados que possamos ser, não estaríamos aqui sendo homenageados se não nos reconhecessem como cultores da dignidade, da honradez, da lealdade, da gratidão e de respeito aos nossos semelhantes.

Claro é que, nós os homenageados devemos agradecer ao IARGS, também porque nos fará ombrear, entre outros, com notáveis mestres do Direito, tal como Armando Câmara, Rui Cirne de Lima, Francisco Brochado da Rocha, José Luiz Martins Costa, Eloi da Rocha, Camilo Martins Costa, Paulo Brossard de Souza Pinto, Valter Becker, Valter Dil, José Neri da Silveira.

Embora pudesse, não vou falar sobre Direito.

Vou falar do que convém, do que posso falar melhor e mais que os outros.

Afinal sou o sócio mais antigo do Instituto e certamente, com 86 anos, o mais velho entre os presentes.

 

Então vou falar sobre a vida, que está povoada por duas espécies de indivíduos, que embora distintos, não alteram a natureza.

É que os indivíduos perecem.

E as espécies são eternas.

Isso porque o tempo é mera forma de pensamento.

Não há antes ou depois, mas apenas eternidade. Nada a ver com emoções humanas, tais como amor, ódio, cólera, inveja, soberba ou piedade, que são propriedade da natureza dos indivíduos e não das espécies.

Aliás, a perpetuação das espécies que são eternas, sobrevivem aos homens, que são finitos e sujeitos a mutações.

Vou falar, pois, de duas formas de ser e que são próprias dos indivíduos e que os classificam como espectadores e participantes.

 

Espectadores são aqueles que vivem e morrem entendendo os eventos como fatos aos quais estão inevitavelmente submetidos.

Aconteça o que acontecer, por um fatalismo inaceitável, atribuem ao que chamam de destino toda e qualquer ocorrência.

A vida não lhes pertence.

A sua passividade é tão grande que são incapazes de qualquer iniciativa para, sequer tentar, alterar a trajetória, que pensam estar escrita e ínsita em um contexto maior.

No máximo manifestam satisfação quando sua expectativa é satisfeita e revolta quando suas aspirações são frustradas.

É contemplativo.

Acredita na sorte.

Observa, mas não sabe nem quer explicar o sucesso e o êxito dos outros.

Se é mau, tem inveja.

Se é bom, tem admiração.

 

Completamente oposto é o homem que participa.

O participante acredita no livre arbítrio em todas as consequências. Repele o destino inexorável.

Todas as circunstâncias que se lhe antepõe procura afastá-las e explicá-las racionalmente, vinculando-as as suas próprias experiências, as suas próprias virtudes ou falibilidade.

Perquirindo causas e encontrando razões, está apto, pelo menos, a tentar encontrar soluções, tomando iniciativas.

Isso porque sabe que conforme o acerto, o empenho, a pertinácia e o vigor são capazes de conduzir aos objetivos desejados.

Pode assim explicar êxitos e fracassos.

É, pois, um construtor da sua própria vida e do seu próprio mundo.

Se não consegue, atribui aos erros que cometeu.

Se teve êxito sabe que o conquistou.

É consciente das suas virtudes e dos seus defeitos e usa desse conhecimento em proveito próprio ou de seus semelhantes.

Como disse Geraldo Vandré em linguagem poética assim é o participante: vem, vamos embora que esperar não é saber;

quem sabe faz a hora não espera acontecer

 

Ocorre, que tanto espectador como o participante são capazes de transmitir suas características ao ambiente em que vivem, exercendo pois, influência sobre coisas e sobre pessoas.

Quando preponderam os espectadores, o ambiente é de estagnação. Quando preponderam os participantes o ambiente haverá de ser constantemente modificado, numa busca permanente de melhorias e aperfeiçoamentos.

 

Por que lhes digo tudo isso?

Para perguntar, afinal de contas, somos espectadores ou participantes? Claro, claríssimo que somos participantes.

E é por isso que nos estão homenageando.

É por isso que somos reconhecidos pelo IARGS, e ainda, além de tudo por uma magnífica manifestação de reconhecimento e saudação.

Todos nós, com muito orgulho somos participantes.

 

Mas, sendo participantes, não podemos esquecer um componente que marcou nossas vidas.

Já disse que o participante influi sobre coisas e pessoas.

Assim, nós participantes sofremos influência de outras pessoas que também são participantes:

A Dra. Marga Barth Tesseler, do seu marido Breno Tessler; ;

O jurista Arakém de Assis, da sua mulher a Des. Mara Larsen Chechi;

O professor Eduardo Carrion e da sua mulher Maria Conceição de Araújo Carrion

E eu, da minha mulher Nara Jobim de Azevedo, que é a mãe dos meus cinco filhos;

Ele e elas foram decisivos nas nossas vidas.

Estou certo que se não as incluíssem nos nossos agradecimentos, estaríamos cometendo uma imperdoável injustiça.

 

Muito obrigado!